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Habitar o Novo: a Travessia Psíquica da Entrada na Universidade

  • Foto do escritor: Ana Luísa
    Ana Luísa
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 22 de abr.


Ingressar na universidade costuma ser descrito como o início de uma nova etapa acadêmica. No entanto, do ponto de vista psíquico, trata-se de algo mais profundo: uma travessia. A passagem do ensino médio para o ensino superior envolve mudanças de rotina, novas responsabilidades e a construção de outras formas de relação com o saber e com os outros.


Esse deslocamento não é apenas institucional ou geográfico. Ele também implica transformações subjetivas importantes. Para muitos estudantes, a universidade representa a saída de um espaço relativamente familiar, marcado pela presença constante da família, de amizades duradouras e de uma estrutura escolar mais delimitada, para um território mais aberto, no qual a autonomia passa a ser exigida de forma mais intensa.


Nesse processo, antigos referenciais começam a se deslocar. Amizades se transformam, vínculos se reconfiguram e novas figuras passam a ocupar lugar na vida do estudante. A psicanálise nos ajuda a compreender que esse movimento pode envolver algo semelhante ao que Freud descreveu como luto


Não necessariamente um luto por perdas concretas, mas pela necessidade de elaborar transformações importantes: o término do ensino médio, o afastamento de certos laços e, em muitos casos, o próprio declínio de algumas identificações próprias da adolescência.


Esse trabalho psíquico permite que a energia investida em experiências anteriores seja redirecionada para novos lugares. Surge então a possibilidade de construir novas identificações: com colegas, professores, projetos acadêmicos e diferentes experiências que atravessam a vida universitária.


A relação com os professores, por exemplo, frequentemente ultrapassa a dimensão estritamente pedagógica. Freud, ao refletir sobre sua própria experiência escolar, observou que muitas vezes os estudantes são profundamente marcados pelas personalidades daqueles que encarnam o saber. O encontro com o conhecimento, portanto, não se dá apenas no plano intelectual, mas também na relação com essas figuras que ocupam, no imaginário do estudante, lugares de autoridade, inspiração ou mesmo contestação.


Contudo, essa travessia também confronta o estudante com algo inevitável: o encontro entre idealização e realidade. A universidade costuma ser cercada por expectativas — a ideia de um curso perfeito, de uma identificação plena com todas as disciplinas ou de um percurso acadêmico sem impasses. O cotidiano universitário, entretanto, revela que o saber é atravessado por dificuldades, frustrações e limites.


É nesse ponto que muitas vezes emerge a angústia. Diferente do medo, que possui um objeto claro, a angústia aparece como um mal-estar diante do desconhecido e das exigências desse novo cenário. Ela pode se manifestar na sensação de não corresponder às próprias expectativas, na insegurança diante das demandas acadêmicas ou na dificuldade de encontrar um lugar nesse novo espaço.


A psicanálise, entretanto, não compreende a angústia apenas como algo a ser eliminado. Em muitos momentos, ela funciona como um sinal de que algo importante está em jogo na experiência subjetiva. A angústia indica que o sujeito está diante de deslocamentos, antigos ideais se transformam, novas escolhas se impõem e o desejo precisa encontrar outras formas de se inscrever.


Nesse processo, Freud aponta uma possibilidade de elaboração que se mostra especialmente fecunda na vida universitária: a sublimação. A sublimação pode ser compreendida como a capacidade de transformar tensões e conflitos internos em produções culturalmente valorizadas.


No contexto universitário, isso pode aparecer de diferentes maneiras: no investimento em projetos de pesquisa, na escrita, na participação em atividades culturais, artísticas ou esportivas, no engajamento em iniciativas coletivas ou sociais. Essas experiências permitem que o estudante encontre destinos criativos para a energia psíquica mobilizada nesse período de transição.


Assim, a universidade deixa de ser apenas um espaço de aquisição de conhecimentos técnicos e passa a se constituir também como um território de experiências subjetivas. Um lugar onde o sujeito se confronta com limites, reformula ideais, constrói novos laços e encontra caminhos singulares para sustentar seu desejo.


A travessia universitária, portanto, não se resume ao aprendizado de conteúdos ou à preparação para uma profissão. Ela envolve um processo mais amplo de reorganização psíquica, no qual cada estudante é convocado a lidar com perdas, construir novas identificações e encontrar formas próprias de habitar esse novo mundo.


Habitar a universidade é, em última instância, aprender a sustentar essa travessia: entre o ideal e o real, entre o saber e a dúvida, entre aquilo que se perde e aquilo que ainda pode ser criado.


 
 
 

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